segunda-feira, 11 de novembro de 2013

VAMOS ESTUDAR O PRÉ-MODERNISMO? - 4º BIMESTRE

4º bimestre da 2ª série- CECIERJ
 CRÔNICA E ROMANCE NO PRÉ-MODERNISMO / SEMINÁRIO E DEBATE REGRADO

TEXTO GERADOR 1
O romance no Pré-Modernismo pode ser refletido por meio de um dos maiores escritores do período: Lima Barreto, jornalista, cronista, contista e romancista. Sua forma de escrever era simples e comunicativa, expondo o retrato da sociedade carioca. Um exemplo disso é a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado em folhetim em 1911 e em livro em 1915. “A Lição de Violão” é o primeiro capítulo da narrativa e apresenta o idealismo patriótico de seu protagonista.

A Lição de Violão

                Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
                Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
                A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.” E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
                Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
                O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?(...) Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
                Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
                Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
(...)
                Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
                Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.
(Lima Barreto)
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VERBETE:
Bongava- procurava, buscava
Monacal- próprio de monge
Misantropo- que tem aversão a pessoas, que não gosta de conviver com outras pessoas
Pedantismo- ato de ostentar cultura e erudição
Pejadas- cheias, repletas
Pince-nez- Óculos leves que se mantêm no nariz pela pressão de uma mola
Capadócio- que é pouco inteligente; que é impostor, trapaceiro
Palrador- falador, tagarela
Inçada- coberta
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ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 1

O estilo de Lima Barreto, fluente, descontraído, distante dos padrões de linguagem do final do século XIX, é um ponto de contato com muitos autores que conquistaram fama após a Semana de Arte Moderna, em 1922. Uma importante característica de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é a linguagem descontraída que integra frases espontâneas e naturais, comuns à linguagem oral. Em diferentes passagens da obra em estudo, podemos perceber o tom prosaico, de conversa, com que o narrador relata o cotidiano de Policarpo Quaresma. A opção em que esse traço fica evidente é:
a) “Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo”.
b) “Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria”.
c) “Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo.”
d) “Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este” rival do
“seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente!

Habilidade trabalhada: Relacionar os modos de organização da linguagem às escolhas do autor, à tradição literária e ao contexto

Resposta comentada
Para iniciar a discussão sobre a questão, convém destacar que o Pré-modernismo não se configura como uma escola literária com características bem definidas, conforme os alunos têm se habituado a conhecer, ou seja, não é um período em que há diferentes autores afinados em torno de um ideal estético. É importante esclarecer que o Pré-modernismo é um termo que busca aglutinar a produção literária de certos autores que, ainda não sendo tidos como modernos, já demonstravam rupturas com o passado e pontos de contato com a estética que estaria por vir, o Modernismo.
Essa introdução é necessária para que os alunos façam uma reflexão sobre os usos da linguagem em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, foco dessa questão. O fato de Lima Barreto fazer uso de uma linguagem mais descontraída e menos academicista afasta-o de autores que cultivam a escrita pomposa, como parnasianos e simbolistas, por exemplo. Ao mesmo tempo em que o afasta de escolas anteriores ou até mesmo contemporâneas, aproxima-o de autores modernos que muito bem cultivaram a escrita simples, pouco pomposa e até mesmo informal.
Especificamente sobre as alternativas, é necessário que o aluno aponte aquela que possui um tom prosaico, de conversa informal. Por eliminação, pretende-se que o aluno perceba ser correta a alternativa d, que contém uma expressão tipicamente informal, própria da fala – Ai de quem – mas incomum na escrita, sobretudo na escrita literária. Daí a novidade, em termos de estilo, trazida por Lima Barreto. Para eliminar as opções a, b e c basta salientar que todas apresentam frases que, embora possam aparecer na fala cotidiana, não destoam da linguagem escrita formal: sem gíria, sem entonação comum à fala, diferente da opção d, em que até mesmo a postura exclamativa a aproxima do tom de conversa informal.

ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 2
Leia atentamente o trecho abaixo e, na sequência, leia o fragmento de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” destacado em itálico:

O primeiro instrumento de cordas que se tem notícias que chegou ao Brasil foi a viola de dez cordas ou cinco cordas duplas, muito popular entre os portugueses e precursora do violão, trazida pelos jesuítas portugueses que aqui chegaram para catequizar os índios e a usavam durante a catequese.
O violão, por ser um instrumento muito usado na música popular brasileira e pelo povo, passou a ter uma má fama, sendo considerado por muitos como um instrumento de boêmios, presente entre seresteiros, chorões, tornando-se um símbolo de vagabundagem e, carregando consigo este estigma por muitos anos.
Em virtude desta discriminação sofrida pelo violão no Brasil e sua associação, os primeiros que tentaram desmistificar esse ranço pejorativo e discriminatório do violão, divulgando-o como um instrumento sério foram considerados verdadeiros heróis.
“Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição,
respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio – não é bonito!”
Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto traz ao leitor elementos próprios das relações humanas, que, longe de particularizarem o Brasil da época, estão presentes em todas as sociedades, de qualquer época. Um tema universal abordado no fragmento destacado acima é:
a) o despreparo político
b) a corrupção na política
c) as relações de interesse
d) o preconceito social

Habilidade trabalhada: Reconhecer a abordagem de temas universais na produção literária do negro brasileiro
Resposta comentada

Como é provável que os alunos não tenham lido “Triste Fim de Policarpo Quaresma” em sua totalidade, não se darão conta de muitos dos temas que figuram na obra. Por essa razão, antes de comentar as alternativas, convém fazer um breve apanhado sobre o livro, salientando, se possível, diferentes temáticas importantes que Lima Barreto põe em cena, como o nacionalismo ufanista do personagem Policarpo, o exagerado militarismo da política brasileira da época, a burocracia etc.
Para esclarecer a questão da universalidade, é possível dar exemplos de questões particulares do nosso país à época de Lima Barreto, como a recém Proclamação da República, a Revolta de Canudos (tematizada na obra “Os sertões”, de Euclides da Cunha), a Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata etc. Isso irá contribuir para a diferenciação necessária entre o que é uma questão universal (como, por exemplo, a fome, a corrupção etc.) e o que é uma questão particular de uma sociedade.
Depois dessa introdução e de o aluno ler atentamente o fragmento, será levado a perceber que, embora todos os temas que figuram nas alternativas possam ser considerados universais (não particulares do nosso país), três deles não se fazem presentes no fragmento apresentado na questão.
O único tema de caráter universal presente no trecho em análise é o preconceito social. Outro trecho que pode ser apontado para demarcar o preconceito social é:
“Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?”No trecho selecionado para o enunciado e no transcrito acima, fica clara a forma preconceituosa com a qual tanto a vizinhança como a irmã de Policarpo encaravam o fato de o mesmo receber em sua casa um professor de violão. Este, considerado um “capadócio”, não era visto como uma boa companhia para um homem de “posição” como o Major Quaresma. Após declarar a alternativa d como correta, cabe uma breve discussão sobre diferentes formas pelas quais o preconceito pode se fazer presente nas diferentes sociedades: em função de raça, gênero, etnia, profissão, idade, classe social etc. Também é importante ressaltar que, ao contrário do que os alunos podem imaginar, diferentes formas de preconceito existem não somente em nosso país, configurando-se, infelizmente, em um problema universal a ser combatido.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 3

Leia o trecho a seguir:

“De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.”

O período acima destacado pode demandar certo esforço de compreensão por parte de alguns leitores, devido ao uso de expressões e/ou elementos não tão usuais nos textos escritos atualmente.
Uma maneira de diminuir esse esforço de compreensão por parte do leitor seria a substituição dessas expressões e/ou elementos por outros mais frequentes na linguagem formal contemporânea, o que torna o período mais claro e objetivo. Tendo em vista esse comentário, assinale a única alternativa em que a reescrita, em prol de maior clareza e objetividade, altera o conteúdo semântico original.

a) Faz muito tempo que a engenharia do nosso município deveria ter se apoderado do dever de evitar esses acidentes urbanos.
b) A engenharia do nosso município deveria, há muito tempo, ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
c) Há muito tempo que a engenharia municipal deveria ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
d) Se a engenharia do nosso município há muito tivesse se apoderado de seu dever, evitaria tais
acidentes urbanos.

Habilidade trabalhada: Empregar adequadamente a linguagem e os fatores de textualidade como clareza e objetividade.

Resposta comentada

Ao iniciar a correção dessa questão, você pode questionar aos alunos se o entendimento deles sobre o período em destaque demandou ou não certo esse esforço de compreensão. É possível que alguns considerem difícil a compreensão do período, porém outros podem não demonstrar dificuldade alguma. É possível, então, conversar com os alunos sobre as possíveis razões para que o entendimento do trecho demande maior esforço. Nesse diálogo, é importante ressaltar que, de fato, expressões como “De há muito” e “se devia ter compenetrado” não são usuais hoje em dia, mesmo na linguagem formal. Pode-se considerar, então, que o uso dessas expressões, assim como a ordem dos termos no período, reduz a clareza e a objetividade do trecho em questão.
É importante observar que a crônica de Lima Barreto, por ser um texto literário, não tem o compromisso de ser um texto absolutamente claro e objetivo, característica exigida dos textos científicos, de divulgação científica, de alguns gêneros jornalísticos (notícia, reportagem etc.). É necessário ressaltar, ainda, que o trecho em questão pode ter sido lido na época em que foi escrito sem ser considerado pouco claro, ou seja, que a construção poderia ser usual nos idos de 1915 (ano da escritura da crônica).
A questão propõe ao aluno que torne o referido trecho um período mais claro e objetivo para o leitor contemporâneo, sendo necessário, para tanto, manter o registro formal da língua portuguesa e o conteúdo semântico expresso no trecho. Após essa introdução, pode-se partir para a análise das alternativas, ratificando que o aluno deve assinalar a única opção que não substituiria adequadamente o período destacado.
A opção a troca as expressões “De há muito” por “Faz muito tempo”; “engenharia municipal” por “de nosso município” ; “se devia ter compenetrado” por “deveria ter se apoderado” e “tais acidentes” por “esses acidentes”. As construções foram alteradas, manteve-se o registro formal e também o sentido original.
A opção b coloca em evidência o sujeito “A engenharia do nosso município”; intercala o comentário do narrador - “há muito tempo”- (no lugar de “De há muito”) e troca “ter compenetrado” por “ter apoderado”. Aqui, a nova construção não fere a linguagem formal nem o conteúdo semântico original.
A opção c se limita a substituir duas expressões pouco usuais na linguagem formal contemporânea por duas mais atuais (De há muito”/“Faz muito tempo”; “se devia ter compenetrado”/“deveria ter se apoderado”), tornando mais clara a leitura e mantendo o sentido do trecho original.
A opção d é a única que, embora também escrita em uma linguagem formal e de leitura fácil e clara, deturpa o conteúdo semântico original do período. A alteração da semântica ocorre devido à inclusão de uma oração condicional (“Se a engenharia...”) que não se observa no período original.
Apesar de o narrador demonstrar insatisfação com o trabalho da engenharia municipal (no período original), não é possível depreender que os acidentes seriam evitados, caso a mesma houvesse se ocupado de sua tarefa. Na verdade, o narrador afirma apenas que ela deveria se ocupar do dever de evitar, mas não garante que o trabalho de fato eliminaria o problema das enchentes.

TEXTO GERADOR 2

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto expressa com muita propriedade a preocupação social tão marcante no Pré-Modernismo. Em “Espinhos e flores”, segundo capítulo da segunda parte da obra, estrutura e administração pública do Rio de Janeiro são criticadas. Além disso, são reveladas as desigualdades no cenário do subúrbio carioca.

Espinhos e flores

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade.
A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada e quer ocultar-se diante daquela onda de edifícios
disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre o rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é o que entra na melhor casa.
(Lima Barreto)

VERBETE:
Boulevards: Palavra francesa que significa “ruas largas ladeadas de árvores”, avenida.
Vielas: ruas estreitas, becos.
Circuitos: Contornos.
Brocados: tecidos de seda com desenhos em relevo realçados por fios de ouro ou prata.
Peralvilhos: indivíduos com pretensão à elegância.
Chita: tecido de algodão estampado em cores.
Mescla: agrupamento de pessoas.
Quarteirão: quadra; grupo de casas que forma um quadrilátero de que cada um dos
lados dá para uma rua.

ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 4 - Lima Barreto foi um autor marcante na abordagem dos problemas sociais. O texto opõe a condição humilde de muitas pessoas e a afetação dos mais ricos, cercados de pompa, de beleza e do glamour de inspiração europeia. Diante disso, reflita sobre a desigualdade social e responda as seguintes questões:

A. Como é apresentada a paisagem do subúrbio carioca?
B. Identifique no último parágrafo as características relativas aos mais ricos e aos mais pobres e sua relação com o espaço do subúrbio carioca na visão de Lima Barreto.

Habilidade trabalhada: Reconhecer a abordagem de temas universais na produção literária do negro brasileiro.

Resposta comentada

No que tange à alternativa A, o docente pode explicar a irregularidade no tamanho das ruas, a presença das vielas, as casas construídas em sequência, a presença de chalets, casas burguesas, choupanas de pau a pique, cobertas de zinco ou de palha, edifícios altos e novos.
Além disso, faz-se necessário o contraponto entre as ruas europeias e as suburbanas. A rua do subúrbio era tratada com desleixo, distinguindo-se do cuidado e da beleza dos jardins europeus.
Para reforçar isso, seria interessante esclarecer o trecho que menciona os cuidados municipais. Algumas passagens das ruas do subúrbio eram pavimentadas e outras não, chamando a atenção para a desigualdade social no próprio subúrbio.
No que concerne à alternativa B, o docente pode esclarecer a mescla de que trata o autor no último parágrafo. De um lado a elegância das moças com tecidos de seda, do outro, as moças com tecidos de algodão (“de chita”) e o operário que anda de tamancos. É interessante explicar que a existência de seda e brocados são recursos da moda, que podem mostrar as tendências de senhoras que vivem de aparências, imitando o vestir europeu. Finalmente, vale frisar que as diferenças sociais se constituem num tema crucial para a produção pré-modernista. Sem dúvida, trata-se de um tema fortemente ligado à história brasileira e ao contexto carioca, no entanto, não é algo exclusivamente nacional. Na verdade, o capítulo permite revelar que o preconceito social, fundamentado na distinção entre classes, é algo universal e que ocorre em todos os níveis, incluindo o próprio subúrbio.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 5

Os marcadores discursivos são elementos linguísticos que fazem referência a partes do texto, podendo englobar o foco no conteúdo da oração ou na intenção de quem fala. Podem ser representados por expressões de modalidade, constituídas por advérbios, conjunções, verbos modais, modos do verbo, marcadores de foco, etc. No cotidiano, podem ser representados por adjuntos adverbiais como “Certamente, estudarei Pré-Modernismo hoje”, em que “certamente” está revelando um programa definido para estudar.
No capítulo “Espinhos e flores”, de Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto apresenta a estrutura do subúrbio em “A topografia do local, caprichosamente montuosa, influi decerto, mais influíram, porém, os azares das construções”, usando os termos “caprichosamente” e “porém”, que podem ser substituídos sem prejuízo de sentido por:

(A) principalmente, também
(B) geralmente, portanto
(C) naturalmente, contudo
(D) calmamente, entretanto

Habilidade trabalhada: Empregar marcadores discursivos (geralmente, muitas vezes...).
Resposta comentada

Ao tratar do assunto, é recomendável distinguir os sentidos entre as opções apresentadas:
Na letra A, o adjunto adverbial “principalmente” mostra algo fundamental, considerado em primeira posição: a geografia montuosa. O autor não destaca a topografia, mas sim o modo como foram construídas as casas, fator determinante para os desnivelamentos na urbanização. O advérbio “também” não está em consonância com a conjunção “porém”, pois enquanto o primeiro acrescenta uma ideia, o segundo opõe ideias.
Na letra B, o adjunto adverbial “geralmente” mostra algo feito regularmente, habitual, de costume. A noção principal da oração em análise não é mostrar algo que está sendo feito em geral, mas de algo que já existe normalmente no cenário do subúrbio. Outra observação é a conjunção “portanto” que dá ideia de conclusão, indo de encontro ao real significado de “porém”: oposição.
Na letra D, o adjunto adverbial “calmamente” pressupõe um estado emocional, que não é posto em relevo na questão. A ideia de tranquilidade, paz, mansidão e outros termos parecidos não são o assunto, nem o foco da questão. Em relação à conjunção “entretanto”, há um consenso de sentido integrado ao significado de “porém”, tendo o mesmo sentido de contraposição.
A resposta certa é a letra C, a expressão “A topografia do local, caprichosamente montuosa, influi decerto, mais influíram, porém, os azares das construções” tem o mesmo sentido de “A topografia do local, naturalmente montuosa, influi decerto, mais influíram, contudo, os azares das construções”, tendo em vista que “naturalmente” expressa o modo como a formação do relevo de montanhas foi feita. Já a conjunção “contudo” expressa contraste assim como “porém”.

TEXTO GERADOR 3
Em suas crônicas, Lima Barreto trata do cotidiano, refletindo acerca de política, sociedade, economia, educação, cultura, costumes sociais e, principalmente, sobre a situação do Rio de Janeiro. Em “As enchentes”, texto escrito em 1915, o autor aborda as enchentes e sua repercussão nas comunicações, nos imóveis e no tráfego urbano. Posteriormente, comenta sobre a engenharia carioca e dá sua opinião sobre como essa questão foi tratada pelo então prefeito Pereira Passos.

As enchentes

                As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.
Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis. De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos. Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
                O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral. Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha! Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
                O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações. Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
(Lima Barreto)

VERBETE:
Tráfego: trânsito.
Squares: praças, áreas (cercadas de ruas), quadras.
Procrastinar: deixar para outro dia, adiar.
Precipitações atmosféricas: expressão relativa à quantidade de chuva caída.
Fachadas: vocábulo relativo à frente do edifício.

ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 6

Nessa crônica, o leitor pode perceber fatos, ou seja, informações incontestáveis relativas a acontecimentos da época, e opiniões, isto é, expressões do ponto de vista do autor. Em qual opção abaixo podemos encontrar um exemplo que contenha apenas a menção a fato, sem explicitação de opinião?

(A) “Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia” (4º parágrafo)
(B) “Que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas” (8º parágrafo)
(C) “Essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis” (2º parágrafo)
(D) “O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos” (5º parágrafo)

Habilidade trabalhada: Distinguir um fato de opinião relativa a esse fato.

Resposta comentada
A princípio, é importante o professor relembrar a concepção de crônica no que concerne à sua crítica social, à posição defendida pelo autor diante dos fatos sociais ocorridos. Nesse caso, as enchentes são apresentadas como um problema público que a cidade enfrenta há muito tempo e que poderia ser resolvido pelas autoridades, por meio de obras de manutenção das ruas. Essa é a opinião do cronista, que afirma que “De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.” Demonstrando ainda o que pensa a respeito do problema das enchentes que o Rio de Janeiro enfrenta, acusa as autoridades de não darem a devida atenção ao assunto, como se pode perceber na afirmação de que “O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio”. A fim de destacar a dimensão do problema enfrentado pela cidade, o autor destaca fatos ocorridos em decorrência das enchentes, como “suspensão total do tráfego”, “interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade”, “desastres pessoais”, “perdas de haveres”, “destruição de imóveis”. Ao mencionar tais fatos, o cronista deixa transparecer sua opinião a respeito deles, como em “prejudicial interrupção das comunicações” e “desastres pessoais lamentáveis”, em que ressalta, através dos adjetivos destacados, sua visão acerca do ocorrido.
Seria interessante, pois, destacar a importância dos adjetivos e advérbios na expressão da opinião sobre o conteúdo proposicional. É importante explicar que o modo como o enunciador se manifesta imprime ao discurso sua intencionalidade. Dessa maneira, ao comentar as alternativas, é interessante solicitar ao aluno que identifique esses termos gramaticais que marcam o ponto de vista. Segue um quadro para orientar essa preparação para a efetiva resposta da questão.

Expressão
Exemplos de palavras de opinião
“Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia” Tão, ousada, perfeita. “que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas” (8º parágrafo) Violentamente, grandes. “Essas inundações causam desastres
pessoais lamentáveis” (2º parágrafo) Lamentáveis. O aluno perceberá, através da identificação dos adjetivos e advérbios, a presença de opinião nas três primeiras opções, embora as opções B e C façam também referência a fatos, como as “precipitações atmosféricas” e as “inundações”. Entretanto, é importante frisar para o aluno que a questão solicita a identificação da opção que faça referência apenas a fato, o que deixa a letra D como única opção possível.
O professor pode explicar o motivo por que a expressão “O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos” (5º parágrafo) consiste em um fato. Nesse caso, é interessante ressaltar que se trata de algo incontestável no ano de 1915, considerando as características de urbanização: avenida, squares, freios elétricos, entre outros índices do progresso da época.

TEXTO GERADOR 4

Nesse texto, João do Rio, seguindo a linha que o consagrou como cronista e repórter de sua época, vai à rua para observá-la, analisar seus tipos mais comuns, dedicando especial atenção à fala do malandro carioca. A frase “-E eu, nada”, que se repete ao longo de todo o texto, não representa a fala de um personagem específico em uma situação narrativa determinada. Trata-se, na realidade, de uma expressão de muita versatilidade, utilizada em contextos distintos e com as mais variadas significações, e por isso mesmo admirada pelo narrador.

O dito da “rua”
                Há agora pelas ruas da cidade um novo dito do populacho. Esse dito é ouvido em cada canto e não exprime particularmente coisa alguma. É antes uma das mil faces da irreverência arrogante da canalha. O malandro para, ginga, diz mordaz:
– E eu, nada?
                É a sarjeta impondo-se, é o riso despreocupado do garoto estabelecendo por troça o seu alto lá! invasor de último estado prestes a liquidar os superiores. Nada mais irônico, de chocarrice mais áspera. O cavalheiro conta uma mentira e sente a interrupção corrosiva: – E eu, nada? O cavalheiro leva uma conquista, e por trás ou de cara desnorteia-o a frase: – E eu, nada? O cavalheiro ganha ao jogo, esbraveja, tem sorte, deplora-se, elogia-se. A frase vem como o obstáculo: – E eu, nada? E eu, nada? para todas as coisas pergunta camaleão, último grito da língua verde e do calão!   E eu amo o calão. Propriamente, cada classe social tem o seu calão como as profissões o têm, original e exclusivista. Um idioma é uma floresta extensa com uma infinita variedade de espécies botânicas. (...) Como, porém, há calão e calão, o da canalha é para mim muito mais curioso pela dose admirável de psicologia latente e pela maneira por que se impõe.
                O número, a quantidade, assoberbam fatalmente e obrigam o domínio do calão canalha. Não há memória de uma frase, de um qualificativo de salão que chegue à rua sem perder a significação. A ralé invade tudo com esse turbilhão de qualificativos e de frases que tudo exprimem, e nascem, morrem, brotam em novas frases, incessantemente. Nos ditos que correm as ruas verifica a gente que as cidades ainda são verdadeiras moradas da alegria... (...) “E eu, nada?” é uma frase que pinta um gesto, uma situação, um momento. O reverso desta formidável época de avanço não pode ser outro senão a indagação de alto lá! irônica e debochativa: “E eu, nada?” (...) A frase pode ser a divisão de metade maior, como dizem as crianças, quando pedem a repartição de um bolo, porque a humanidade sempre se dividiu numa parte que come, e na outra que espera a vez. A que espera a vez está mesmo a dizer o “– E eu, nada?” Frases tais valem por poemas e por tratados de sociologia. Quem a fez? ninguém sabe. Nascem do anônimo, o anônimo fá-la saltar ao ar de toda a parte, por todos os cantos, e agora, no Rio, cidade de ambições desvairadas, de riso, de troça, de luxúria, para todas as coisas, só há uma frase: “– E eu, nada?” pergunta camaleão, último grito dos sem vintém, da língua verde e do calão! (João do Rio)
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VERBETE
Canalha: pessoa traiçoeira, má.
Sarjeta: lugar, situação ruim.
Chocarrice: gracejo atrevido e grosseiro.
Corrosiva: aquilo que corrói, destrói.
Esbravejar: berrar, gritar.
Deplorar: lamentar, lastimar.
Calão: linguagem especial, peculiar.
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ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 7

O texto literário reflete o contexto sociocultural de sua época. No caso do Pré-modernismo, a valorização do popular foi uma prática inédita até então e tem em João do Rio seu grande representante. Sendo assim, suas crônicas possuem um caráter mais jornalístico, ou seja, em “O dito da rua”, o narrador não está contando uma história, com início, meio e fim; ele está fazendo comentários sobre um fato. Baseando-se nesse texto, responda às questões abaixo.

a) Identifique os seguintes elementos:
_ Fato:
_ Quando o fato ocorre:
_ Onde o fato ocorre:
_ Quem está envolvido no fato:

b) Como o narrador se posiciona diante deste fato: de forma positiva ou negativa? Justifique sua resposta transcrevendo uma passagem do texto.

Habilidade trabalhada: Relacionar os modos de organização da linguagem às escolhas do autor, à tradição literária e ao contexto sociocultural de cada época.

Resposta comentada
a) O fato é o surgimento de uma nova expressão popular, especificamente da malandragem carioca, o “-E eu, nada?”. O cronista, localizado na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, vai às ruas conhecer as classes mais populares da cidade, representadas nesse caso, pela figura do malandro carioca.
b) O narrador posiciona-se de uma forma até então inovadora, pois seu intuito, ao se dedicar a essa camada da população, não é o de formar um retrato caricatural ou sugerir correções morais. Ele apenas quer conhecê-la e exaltá-la em sua singularidade, apresentando, então, uma avaliação positiva sobre o fato narrado. Um trecho significativo seria: “E eu amo o calão. Propriamente, cada classe social tem o seu calão como as profissões o têm, original e exclusivista. Um idioma é uma floresta extensa com uma infinita variedade de espécies botânicas. (...)”.
A fim de explorar ainda mais a crônica, o professor também pode ressaltar para os alunos os seguintes aspectos:
Personagem e Conteúdo: As crônicas não apresentam personagens de psicologia complexa, que necessitem de um desenvolvimento típico de um conto ou romance, por exemplo. Sendo assim, o cronista busca retratar em seus textos as pessoas comuns, em situações corriqueiras. No caso da crônica de João do Rio, em função de seu contexto de produção, um dos objetivos era conhecer o Brasil e, por isso, o cronista vai às ruas para observar o comportamento desse novo grupo social, o malandro. Para tratar desse grupo, ele escolhe um dos aspectos – a linguagem – e tece as suas considerações a respeito do modo de falar desse segmento da sociedade.
Linguagem e narrador: Narrado em 1º pessoa, “O dito da rua” centra-se na análise da linguagem do malandro carioca. De forma bastante objetiva e clara, o narrador tece comentários a respeito dos variados usos para a frase “E eu, nada?”. Além disso, percebe-se nitidamente que o tom do texto é de conversa, sem formalidades. O narrador de João do Rio, em 1º pessoa, cumpre o papel de um repórter que vai às ruas conhecer a realidade.
Tempo: O “agora” do texto não apresenta significação própria, somente o contexto confere a ele um valor semântico, de modo que, ao lerem essa frase, os alunos devem perceber a necessidade de se transportarem para o início do século XX. Do contrário, a compreensão do texto ficará comprometida.
Espaço: Durante o Pré-Modernismo, foi comum que a literatura se voltasse para várias partes do Brasil, tentando conhecê-lo melhor. Coube, então, a João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio, dedicar-se ao Rio de Janeiro das classes populares, das ruas, da noite, dentre outros aspectos trabalhados em sua obra. Nessa crônica em especial, há várias vezes uma referência explícita ao Rio de Janeiro. Vale destacar que nas crônicas o espaço é limitado em função de não haver um desenrolar complexo de ações.

ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL
QUESTÃO 8

Os textos lidos neste roteiro são exemplares do Pré-Modernismo brasileiro. Considerando que outras produções também se destacaram, desenvolva uma pesquisa sobre autores e obras desse período. Com as informações levantadas, elabore um painel, contemplando os seguintes tópicos:

a) Autores em destaque;
b) Obras mais relevantes de cada autor no período pré-modernista;
c) Breve resumo das obras;
d) Trabalhos artísticos e produtos culturais inspirados por essas obras;
e) Aspectos socioculturais brasileiros presentes nas obras;
f) Relevância e/ou atualidade das obras.

Habilidade trabalhada: Pesquisar sobre autores e obras do período pré-modernista e preparar um seminário/debate regrado para apresentação, utilizando recursos midiáticos e infográficos, citação de fontes e tempo para questionamentos do público.

Comentário:

Nesta questão, importa que os alunos desenvolvam uma pesquisa sobre a produção pré-modernista.
Eles podem produzir cartazes, escrever em blogs ou, simplesmente, reunir essas informações num trabalho escrito a ser entregue ao professor. Nessa atividade, o formato ou o gênero não é o mais relevante. Como o próprio descritor deixa claro, a produção deste momento terá sua culminância apenas no próximo ciclo, quando serão abordados os gêneros seminário e debate regrado.

Uma possibilidade de organização do trabalho é dividir a turma em grupos e definir um formato de apresentação. Os aspectos listados no enunciado servem para orientar a produção dos alunos e facilitar a reflexão sobre os principais traços observados nas obras do período.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

SIMBOLISMO, GRAMÁTICA E PRODUÇÃO TEXTUAL- 2ª PARTE- 3º BIMESTRE



SIMBOLISMO E GRAMÁTICA E PRODUÇÃO TEXTUAL

TEXTO GERADOR 1

O primeiro texto gerador deste ciclo, o poema Cárcere das Almas, é de autoria de Cruz e Souza. Negro e filho de escravos, o poeta enfrentou o preconceito e se tornou um dos maiores nomes do Simbolismo no Brasil. Cruz e Sousa tem como temas constantes em sua obra a sublimação, o espiritualismo, o misticismo, a religiosidade, a pregação do amor e da grandeza moral. Cárcere das almas é um soneto bastante ilustrativo da estética simbolista e focaliza a espiritualidade, a sublimação.

CÁRCERE DAS ALMAS

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e funéreas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!
Cruz e Sousa

Atroz: desumana, aflitiva.
Calabouço: prisão subterrânea;
cárcere; cadeia.
Cárcere: calabouço.
Colossais: com proporções de colosso
(agigantado, excepcional, grande
poderio ou soberania), extraordinárias.
Etéreo: celestial; sublime.
Funéreas: fúnebres (relativo à morte)
Grilhões: cadeias; laços, prisões.

ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 1:

O Simbolismo é um movimento literário que reflete um momento histórico bastante complexo: marca a transição para o século XX. Os males advindos da Revolução Industrial (a superpopulação nas grandes cidades, a briga por mercados consumidores, guerras entre as grandes potências etc.) aliados à incerteza quanto à eficiência dos métodos científicos na busca da compreensão do real, promovem uma crise: o homem é levado ao sentimento da descrença, da desesperança, do desalento. O período é tomado por um pessimismo que se reflete no abandono das correntes materialistas e no refúgio na realidade subjetiva, no inconsciente e no espiritualismo.

O poema “Cárcere das almas” traz uma temática que exemplifica, de forma clara, a tendência pessimista que marcou o fim do século XIX. No poema, nota-se uma preocupação do eu-lírico acerca da existência humana. Tendo em vista essa observação, responda:

a) De acordo com a 1ª estrofe do poema, a que limitação o ser humano estaria submetido?
b) Destaque pelo menos um par de versos da 3ª estrofe em que se reafirma o estado doloroso e angustiante em que se encontram as almas.

Habilidade trabalhada:

Reconhecer na estética simbolista traços da tendência pessimista do “fim do século”. Resposta comentada: Com essa questão, pretende-se que o aluno perceba que o movimento simbolista nasceu em um período de transição para o século XX, quando houve uma intensificação do processo burguês-industrial. É importante iniciar a correção mostrando que:

a) o Simbolismo surge na desilusão perante essa nova realidade;
b) o Simbolismo representa uma oposição ao materialismo cada vez mais crescente;
c) na poesia simbolista, é comum transparecer o sentimento de pessimismo, de descrença, de isolamento, de oposição ao ideário burguês e o desejo de sublimação.

A. A partir da análise do próprio título da poesia, “Cárcere das almas”, é possível chamar a atenção para a temática nela desenvolvida: a dor da existência humana. A palavra “cárcere” faz referência ao local onde se encontram as “almas” – que, por figurar no plural, sugere que a dor não é apenas do eu-lírico, mas da coletividade humana. É importante os alunos compreenderem que os simbolistas tendem a buscar a essência do ser humano, aquilo que ele tem de mais profundo. Nesse sentido, o poema “Cárcere das almas” é bastante representativo, pois denota a preocupação do eu-lírico diante do aprisionamento a que está submetido o espírito humano, preso que está ao corpo. B. Neste item, você pode salientar que, em todo o poema, o autor procurou destacar a limitação e a rigidez a que a alma humana está condenada. Ao longo da poesia, o eu-lírico retoma a ideia já expressa no título da poesia, denotando ser angustiante a condição humana. Pode-se depreender que o “cárcere das almas” seria o próprio corpo, a nossa materialidade. Frente a esse materialismo a que nossa condição humana está condicionada, a alma humana parece não atingir a almejada plenitude, a sublimação tão latente nos poemas simbolistas. Toda a terceira estrofe configura-se como uma espécie de lamento face ao estado de abandono em que se encontram as almas “nas prisões colossais” (2° verso do 1° terceto). A resposta esperada para a questão é o par de versos “Ó almas presas, mudas e funéreas / Nas prisões colossais e abandonadas.”.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA

QUESTÃO 2:

A primeira e a terceira estrofes do poema são iniciadas por uma interjeição (Ah!/Ó), ou seja, por uma palavra invariável que é utilizada para exprimir diferentes emoções, apelo ou estado de espírito. Sobre o valor expressivo dessas interjeições,
pode-se afirmar que:

a) A interjeição “Ah!” exprime uma invocação, e a interjeição “Ó” exprime a alegria do eu -lírico.
b) A interjeição “Ah!” exprime a alegria do eu-lírico, e a interjeição “Ó” exprime espanto/admiração.
c) A interjeição “Ah!” exprime espanto/admiração, e a interjeição “Ó” exprime uma invocação.
d) A interjeição “Ah!” exprime a alegria do eu-lírico, e a interjeição “Ó” exprime uma invocação.

Habilidade trabalhada:

Identificar o valor expressivo das interjeições e demais sinais de pontuação.

Resposta comentada:

Antes de iniciar a correção desta questão, você pode retomar, junto aos alunos, o conceito de interjeição. Primeiramente, pode ser feita a observação de que a interjeição é uma palavra que não sofre variação em gênero ou número, ou seja, não admite a transposição masculino/feminino, assim como singular/plural. Por isso, é classificada como uma palavra invariável.

Na oralidade, as interjeições se fazem constantemente presentes nas conversas informais. Nos gêneros textuais escritos, as interjeições são bastante recorrentes nas tiras cômicas, nas histórias em quadrinhos, nos chats e e-mails informais. Você pode chamar a atenção do aluno para o uso que ele possivelmente faz das interjeições mais comuns em seu cotidiano: Ah!; Hum!; Ó!; Psiu!; Puxa!; Meu Deus! etc. Quanto ao aspecto semântico, é importante que o aluno demonstre compreender que o significado de cada interjeição está relacionado ao modo como é proferida e que, para tanto, o contexto torna-se primordial. É fundamental o aluno perceber o contexto da fala ou da escrita como elemento determinante do sentido tomado pela interjeição. A questão exige que o aluno demonstre perceber o valor expressivo das interjeições Ah! (primeira estrofe) e Ó (terceira estrofe). A alternativa A não serve como resposta para a questão, pois a interjeição Ah! não denota uma invocação, mas sim, espanto, admiração. Já a interjeição Ó denota um chamamento, uma invocação e não a alegria do eu-lírico. Caso o aluno marque essa opção, você pode reforçar a ideia de que o eu-lírico do poema em momento algum da poesia demonstra o sentimento de alegria. Esse mesmo comentário pode ser feito com relação às alternativas B e D. O aluno, então, será levado a perceber que a alternativa correta é a letra C, pois a interjeição Ah! denota o sentimento de espanto do eu-lírico diante do fato de as almas estarem presas no cárcere e a interjeição Ó representa uma invocação a essas almas.

TEXTO GERADOR 2

O poema Violões que choram, do poeta Cruz e Sousa, é uma referência no estudo do Simbolismo, principalmente quando a intenção é focalizar a musicalidade, uma das principais características dessa estética. O poema foi escolhido como Texto Gerador não só pela presença recorrente de recursos sonoros comuns nos poemas simbolistas (assonância, aliterações, rimas), como também pela riqueza de imagens sugestivas.

VIOLÕES QUE CHORAM

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
noites de solidão, noites remotas
que nos azuis das Fantasias bordo,
vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua
anseio dos momentos mais saudosos,
quando lá choram na deserta rua
as cordas vivas dos violões chorosos.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
e vão dilacerando e deliciando,
rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
dedos nervosos e ágeis que percorrem
cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
mágoas amargas e melancolias,
no sussurro monótono das águas,
noturnamente, entre ramagens frias.

Constelando: “elevando aos céus” (imaginando).
Dilacerando: afligindo muito.
Dolências: Aflições, lágrimas, em estado doloroso, plangentes.
Ignotas: desconhecidas, ignoradas.
Laceram: se afligem muito.
Monótono: em um só tom.
Murmurejantes: rumorejantes (sussurrar),

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA

QUESTÃO 3:

A musicalidade é uma das características mais destacadas da estética simbolista. Na construção da musicalidade, diferentes recursos sonoros são empregados: a aliteração (repetição de sons consonantais), a assonância (repetição de sons vocálicos), a métrica e a rima. Desse modo:

a) Identifique um verso em que seja marcante a figura sonora aliteração, informe
qual o som que marca essa aliteração e o que essa repetição do som pode sugerir.

b) Analise a 7ª estrofe e identifique quais são os sons vocálicos que se repetem de
forma harmônica em cada verso.

c) Identifique o esquema de rima das quatro primeiras estrofes do poema e diga se
são alternadas, intercaladas, emparelhadas ou mistas.

Habilidade trabalhada:

Analisar textos simbolistas, identificando recursos ligados à musicalidade.

Resposta comentada:

Quanto à musicalidade dos poemas simbolistas, é importante os alunos compreenderem que a poesia, em si, não apresenta fundo musical, ou seja, não foi musicada pelo poeta, mas que essa musicalidade é um elemento intrínseco à poesia, alcançada por meio do emprego de aliterações, assonâncias, rimas, repetições oportunas de fonemas etc. Essa questão, dividida em três itens, está dedicada aos três principais recursos usados pelos poetas com o objetivo de conferir tal efeito sonoro.

A. Você pode iniciar a correção deste item retomando a conceituação da aliteração como sendo uma figura de som que consiste na repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes em uma frase, um verso ou versos próximos, sobretudo nas sílabas tônicas. Espera-se que os alunos não tenham dificuldade em localizar, nessa poesia, um verso marcado pela aliteração, tendo em vista que a mesma nos oferece claras possibilidades na última estrofe.

Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

O aluno poderá apontar dois diferentes sons responsáveis por configurar as aliterações nesses versos: o fonema /v/ (vozes, veladas, veludosas, vozes, volúpias, etc.) e o fonema /l/ (veladas, veludosas, volúpias, violões). Além de identificar a aliteração, espera-se que os alunos percebam que um efeito de sentido possível criado por esse recurso é a sugestão do dedilhar de um violão.

B. Neste item, espera-se que o aluno consiga perceber, na 7ª estrofe do poema, a repetição de sons vocálicos nas sílabas tônicas dos versos. Relembre com eles que essa repetição recebe o nome de assonância, uma figura de linguagem (de som) bastante recorrente nos poemas simbolistas. Com a estrofe no quadro, você pode solicitar que os alunos digam a sílaba tônica de cada palavra constante dos versos, para, em seguida, verificarem quais vogais se repetem. Com isso, os alunos chegarão mais facilmente à resposta. Vejamos:

Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas

As vogais que constituem as assonâncias dessa estrofe são: o (presente nas palavras “vozes”, “velozes” e “vórtices”) e a (presente nas palavras “veladas” e “vulcanizadas”). Você pode mostrar que essas assonâncias contribuem, também,
para a formação das rimas. Relembre com os alunos que contamos as sílabas poéticas até a última sílaba tônica de cada verso e que, portanto, tais sílabas estão marcadas pela assonância, o que contribui para a melodia do verso.

C. Embora os alunos já tenham revisto o esquema de rima no 1º ciclo deste bimestre, não é demais recordar que a terminação de cada verso pode corresponder a uma letra (A, B, C etc.). Com essa questão, espera-se não somente que os alunos façam o esquema de rimas adequadamente, mas também percebam que a rima, na poesia, é um dos recursos que contribuem para a construção da musicalidade. Essa percepção é fundamental, pois demarca certa fronteira entre os poetas parnasianos e simbolistas: os primeiros cultivavam as rimas tendo em vista o rigor e perfeição da forma (a arte pela arte); os segundos, embora também possuam preocupação com a forma, não tornam essa preocupação o objetivo maior do fazer poético. O aluno deve perceber, ainda, após montar o esquema, que as rimas apresentadas são alternadas. Caso os alunos apresentem dificuldades em responder a questão, é possível relembrar os tipos de rimas existentes: alternadas emparelhadas (AABB) ou mistas (ABCD). (ABAB), intercaladas (ABBA), Ah! plangentes violões dormentes, mornos, soluços ao luar, choros ao vento... Tristes perfis, os mais vagos contornos, bocas murmurejantes de lamento.
(A)
(B)
(A)
(B)

Noites de além, remotas, que eu recordo, (C)
noites de solidão, noites remotas (D)
que nos azuis das Fantasias bordo, (C)
vou constelando de visões ignotas. (D)
Sutis palpitações à luz da lua (E)
anseio dos momentos mais saudosos, (F)
quando lá choram na deserta rua (E)
as cordas vivas dos violões chorosos. (F)
Quando os sons dos violões vão soluçando, (G)
quando os sons dos violões nas cordas gemem, (H)
e vão dilacerando e deliciando, (G)
rasgando as almas que nas sombras tremem. (H)

TEXTO GERADOR 3

A canção “Ode aos ratos” integra o CD Carioca, lançado por Chico Buarque no ano de 2006. A canção foi escolhida por ser de autoria de um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira, por ser contemporânea e por conter claros exemplos de recursos ligados à musicalidade, como a aliteração e a assonância.

ODE AOS RATOS

Rato de rua Arriba: para cima.
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Estuporador: Ser que se torna desprezível, que se zanga,
que fica furioso.
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago Frenética: agitada.
Atrás do seu quinhão
Irrequieta: agitada.
(...)
Libidinoso: libertino (que não se prende às convenções

Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão

Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato

sociais, especialmente, em relação ao comportamento
sexual).
Lúbrico: lascivo (libidinoso).
Ode: Composição poética de caráter lírico.
Proliferação: reprodução.
Quinhão: cota.
Tenaz: obstinado (teimoso).
Transeunte: Indivíduo que passa.

ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 4:

A poesia é uma composição literária escrita em versos. Embora não seja concebida com melodia, conforme a canção, é possível notar que muitos poemas apresentam recursos sonoros que conseguem sugerir musicalidade aos versos. A canção, diferentemente da poesia, é constituída por letra e melodia: ela é feita para ser cantada. A letra e a melodia formam um todo que confere harmonia à composição da canção.
Na canção “Ode aos ratos”, de Chico Buarque, além de haver uma melodia (intrínseca a toda canção), há a presença de recursos sonoros – também facilmente encontrados nos poemas simbolistas – que contribuem para reforçar a musicalidade dos versos. Considerando essas características, destaque dois recursos sonoros empregados pelo compositor nessa canção.

Habilidade trabalhada:

Identificar os recursos expressivos do gênero textual canção, reconhecendo sua relação com a poesia e a música.

Resposta comentada:

Você pode, inicialmente, fazer a leitura compartilhada com os alunos e, em seguida, colocar a música1 para que todos ouçam e possam observar atentamente a melodia e possíveis recursos sonoros da canção.

Um dos aspectos a ser observado pelos alunos é a marcante aliteração ocasionada pela recorrente repetição do fonema /R/. Você pode mostrar aos alunos que, presente já no título da canção, o fonema /R/, inicial na palavra “rato”, é retomado em um grande número de versos e, normalmente, figura em palavras que são usadas para designar ações desse ser ou características por ele apresentadas. Um efeito de sentido

Disponível em: //letras.mus.br/chico-buarque/129836/. possível criado pela constante aliteração do /R/ é a agitação e fremência características da vida nos centros urbanos, onde habitariam o animal rato e homem-rato. Outro recurso a ser apontado pelos alunos é a assonância. Na primeira estrofe da canção, observa-se a repetição da vogal “u”, na sílaba tônica de três diferentes vocábulos (“rua”, “criatura” e “lúbrico”). Na última estrofe, se faz marcante a repetição das vogais “a” e “o”, que é reforçada pela aliteração do “r” e da própria repetição das palavras “rato” e “rói”.

Caso os alunos apontem a rima como resposta, é importante verificar em quais versos se basearam. É necessário frisar que a rima, apesar de estar presente na canção de Chico Buarque, não se enquadra em um padrão fixo como se observa nos poemas parnasianos e em boa parte dos poemas simbolistas. Alguns pares de versos podem ser apontados pelos alunos para marcar a presença desse recurso na referida música: Rato de rua /Irrequieta criatura; Tribo em frenética proliferação/Atrás do seu quinhão; Estuporador da ilusão/Filho de Deus, meu irmão.

ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 5:

A ambiguidade consiste na duplicidade de sentidos que pode surgir no emprego de um vocábulo, em uma frase ou na totalidade de um texto. Quando não-intencional, a ambiguidade é vista como um problema do texto; entretanto, quando utilizada de modo intencional, ela representa um importante recurso expressivo e se faz presente em diferentes gêneros textuais: tiras cômicas, propagandas, poesias, canções.

O título da canção, “Ode aos ratos” sugere que a letra poderá ser entendida como uma exaltação (“Ode”) ao ser “rato”. Tendo em vista esse comentário e o fragmento acima, responda:

a) Na primeira estrofe de “Ode aos ratos”, que informações ajudam a descrever o animal rato?

b) Na segunda estrofe, há um par de versos em que o eu-lírico se identifica com esse ser que descreve. Destaque-o.

c) Considerando as características e os comportamentos apontados sobre o “ser” rato, pode-se dizer que a letra apresenta ambiguidade? Justifique sua resposta.

Habilidade trabalhada:

Reconhecer situações de ambiguidade e ironia que decorram do ponto de vista do autor ou eu-lírico.

Resposta Comentada:

Dividida em três itens, essa questão tem por objetivo principal levar os alunos a perceberem, gradativamente, a presença da ambiguidade na canção de Chico Buarque. Busca, também, tornar claro o fato de a ambiguidade constituir-se como um recurso expressivo quando é empregada de forma intencional por um compositor ou poeta.

A. Neste item introdutório, os alunos devem ser capazes de perceber que o início da letra da canção contém uma descrição do ser rato. Para tanto, o aluno pode apontar como possibilidades de resposta diferentes expressões: Irrequieta criatura, Tribo em frenética proliferação, Boca de estômago, Tenaz roedor.

B. Aqui, espera-se que o aluno perceba que o único momento no qual eu-lírico aparece claramente na canção é quando lança mão das expressões Ó meu semelhante / Filho de Deus, meu irmão. Esses são os versos que mostram não somente a presença do eu-lírico, mas também a sua identificação com o ser rato. Você pode ressaltar, ainda, que a expressão “Ó meu semelhante” pode ser entendida como uma forma de lamento pelo que sofre esse semelhante ou como uma espécie de exaltação à sua sobrevivência, apesar das mazelas.

C. Espera-se que o aluno consiga notar que o compositor escolhe o ser rato para estabelecer comparações com os seres humanos. Você pode mostrar, por exemplo, que as palavras rua, criatura, profanador, saqueador, estuporador, ao mesmo tempo em que fazem parte do campo semântico definidor do rato (animal), ajudam a delinear grandes problemáticas da condição humana: a mentira, a desonra, o roubo, a fome etc. É importante os alunos compreenderem que a forma como a letra da canção está organizada não torna claro se está sendo feita uma referência ao animal rato ou ao ser humano que, dada sua condição muitas vezes miserável, pode ser percebido como um rato.

TEXTO GERADOR 4


Alphonsus de Guimaraens é um grande representante do Simbolismo. Sua poesia é marcada pelo tema da morte e pela musicalidade, obtida mediante os recursos da aliteração e da assonância. No poema a seguir, o leitor pode visualizar um texto com metáforas, substantivos, adjetivos e locuções adjetivas, transmitindo um conflito existencial, expresso pelo mistério fúnebre, pela dor de existir e pelo ritmo das fases da vida.

AEIOU

Manhã de primavera. Quem não pensa Descamba: Declina.
Em doce amor, e quem não amará?
Fado: destino.
Começa a vida. A luz do céu é imensa...
A adolescência é toda sonhos.
A. Lutulenta: lamacenta.
O luar erra nas almas. Continua
Marulha: agita-se (o mar), formando ondas que,
nesse texto, se referem ao mar de lágrimas.
O mesmo sonho e oiro, a mesma fé.
Olhos que vemos sob a luz da lua...
Ocaso: desaparecimento do sol do horizonte;
A mocidade é toda lírios. E. ocidente, poente; fim; morte.
Oiro: ouro.
Descamba o sol nas púrpuras do ocaso.
As rosas morrem. Como é triste aqui!
O fado incerto, os vendavais do acaso...
Marulha o pranto pelas faces. I.
A noite tomba. O outono chega. As flores Penderam murchas. Tudo, tudo é pó.
Não mais beijos de amor, não mais amores...
Ó sons de sinos a finados! O.
Abre-se a cova. Lutulenta e lenta,
A morte vem. Consoladora és tu!
Sudários rotos na mansão poeirenta...
Crânios e tíbias de defunto. U.
Alphonsus de Guimaraens

Púrpuras: vocabulário relativo à cor vermelha.
Rotos: que se romperam; rasgados; maltrapilhos.
Sudários: espécie de lençol para envolver cadáveres.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 6:
O poema “AEIOU”, de Alphonsus de Guimaraens, possui uma construção
pautada nas vogais, representando o estado de espírito do eu-lírico em cada estrofe. Há
uma sequência, que vai desde um ânimo otimista até uma sensação pessimista, realçada
por figuras de linguagem, como a metáfora e a metonímia.

A. No verso “A mocidade é toda lírios”, a construção de imagem foi possibilitada
por qual figura de linguagem?

(A) Comparação, pois ocorre uma comparação entre mocidade e lírios.
(B) Metonímia, pois o enunciado sugere a troca de mocidade por lírios.
(C) Metáfora, pois a alegria da mocidade é associada à beleza dos lírios.
(D) Sinestesia, pois há uma mistura de sensações entre mocidade e lírios.

B. Explique como essa figura de linguagem atua na construção de uma imagem sugestiva no poema.

Habilidade trabalhada:

Reconhecer o emprego de figuras de linguagem na construção de imagens sugestivas.

Resposta comentada:

A. A fim de esclarecer a primeira parte da questão, o professor pode explicar cada figura de linguagem do enunciado: metáfora, metonímia, comparação e sinestesia, usando exemplos do cotidiano ou literário. A comparação é baseada numa associação em que a partícula “como” é expressa explicitamente. Para aplicar essa noção em sala de aula, é sugerido que o professor transforme a oração “A mocidade é toda lírios” em “A mocidade é como lírios”, mostrando que o acréscimo do “como” estabelece uma comparação nitidamente definida. A sinestesia é baseada na mistura entre os sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar), como ocorre em “som colorido”. Nesse exemplo, são mescladas audição e visão. A metonímia é uma figura que faz a troca de uma palavra por outra, havendo possibilidade de relação parte/todo, autor/obra, singular/plural, abstrato/concreto, matéria/objeto e continente/conteúdo, como, por exemplo, “Ler Alphonsus de Guimaraens é importante” (as obras do autor, relação autor/obra). Já a metáfora, um recurso bastante usado no cotidiano; consiste em uma comparação entre algo concreto do cotidiano e um abstrato, sem o uso da partícula “como” ou qualquer outro conectivo. Essa figura é observada na expressão “A mocidade é toda lírios”, na qual há uma comparação implícita entre a juventude e a imagem da flor. Logo, a alternativa C é a resposta correta. B. Refletindo sobre a segunda parte da questão, é recomendável ao professor a leitura de estrofe por estrofe, discutindo com os alunos sobre as alegrias da
adolescência (primeira estrofe) e da mocidade (segunda estrofe) até chegar às tristezas após o pôr do sol (três últimas estrofes), exemplificando da seguinte maneira:

GRADAÇÃO NO POEMA A E I O U, DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS

1ª estrofe: A: manhã, primavera, amor, vida, adolescência.
2ª estrofe: E: fé.
3ª estrofe: I: triste, incerto, vendavais.
4ª estrofe: O: noite, tomba, outono, flores, pó, amores.
5ª estrofe: U: lutulenta, defunto.

Nesse esquema, o professor pode mostrar o conteúdo metafórico da gradação, partindo de palavras com sentidos mais positivos em relação à vida: “manhã”, “primavera”, “amor” e “fé”. Depois, o professor pode mostrar as palavras que remetem ao aspecto negativo da morte: “triste”, “incerto”, “pó”, “lutulenta” e “defunto”.
Baseando-se nisso, o professor pode explicar a metáfora “A mocidade é toda lírios” em termos da fase positiva da segunda estrofe, motivada pela imagem de beleza da juventude, pelas flores belas e aromáticas dos lírios e pela fé. Para aprofundar essa discussão, o professor pode comentar que, na época da mocidade, é comum ter esperança e fé, comparadas pelo eu-lírico ao sonho e ao ouro, no verso “O mesmo sonho e oiro, a mesma fé”.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA- QUESTÃO 7:

Os termos acessórios da oração são termos que, embora chamados de acessórios, podem especificar um substantivo, um verbo, um adjetivo ou um advérbio. Há três categorias: i) adjunto adnominal, usado para delimitar ou especificar o significado de um substantivo; ii) adjunto adverbial, usado para transmitir uma relação de circunstância do fato expresso pelo verbo; iii) e aposto, expressão que pode explicar ou especificar o significado de uma palavra no texto. A partir disso, responda às questões:

a) Sobre o verso “A luz do céu é imensa...” (primeira estrofe), explique o termo acessório “do céu” e sua função na expressão.
b) O verso “Sudários rotos na mansão poeirenta”, que aparece ao final do poema AEIOU, de Alphonsus de Guimarães, ajuda a compor, com seus termos acessórios, o clima de morte, decadência e degradação desta última estrofe. Leia
a estrofe completa e explique como esse efeito é obtido a partir dos adjuntos adnominais presentes no verso indicado.

Abre-se a cova. Lutulenta e lenta,
A morte vem. Consoladora és tu!
Sudários rotos na mansão poeirenta...
Crânios e tíbias de defunto. U.
Habilidade trabalhada:

Identificar os termos acessórios da oração.

Resposta comentada:

Ao abordar essa questão, é recomendável ao professor explicar os termos acessórios da oração, usando exemplos do cotidiano e da Literatura para que os alunos compreendam a função do adjunto adverbial, aposto e adjunto adnominal.

No caso do adjunto adverbial, é necessário explicar sua relação com o verbo e mencionar algumas circunstâncias envolvidas como probabilidade, intensidade e tempo, perceptível em exemplos cotidianos, como em “Provavelmente, eu vá estudar muito hoje”.

Ao comentar o aposto, o professor pode explicar que o termo pode vir entre vírgulas e resumir trechos anteriores, como em “Glória, poder, dinheiro, tudo passa”. Além disso, também poderá explicar o papel discursivo do termo, que ajuda a precisar o sentido do substantivo que o antecede.

Ao tratar do adjunto adnominal, é interessante apresentar sua função de delimitação do significado de um substantivo e de representação por meio de um adjetivo, de uma locução adjetiva, de um artigo, de pronome adjetivo, de numeral e de
oração adjetiva.

A) No caso do termo destacado na questão A, o vocábulo “luz” tem seu significado delimitado pela locução adjetiva “do céu”, diretamente relacionado à fase positiva da adolescência, repleta de sonhos e de esperanças.

O professor pode, ainda, destacar que o mesmo verso “A luz do céu é imensa...” possui outros adjuntos adnominais referentes ao substantivo “luz”: o artigo definido feminino “a” e o adjetivo “imensa”.

B) Com relação ao item B, é interessante destacar a diferença que faz o autor dizer sudário e sudário roto, mansão e mansão poeirenta. Lembre o aluno de que o que está sendo apresentado é uma cova, como indicado no primeiro verso da estrofe.

Sudário, como o aluno já sabe, era o tecido que, antigamente, envolvia os defuntos para serem sepultados. O poeta, ao adjetivá-lo como roto, destaca a deterioração em que um dia nos e encontraremos: não só é uma vestimenta de cadáver, como está rota. Esse sudário está posto em uma “mansão poeirenta”. Aqui, o adjunto provoca uma transformação do sentido do vocábulo “mansão”, o que também é propiciado pelo contexto. O adjunto adnominal ajuda a construir uma metáfora para cova. Mansão, que remeteria inicialmente para um lugar de requinte e luxo, ao receber o adjetivo poeirenta, é como um lugar desagradável, insalubre. Assim, os termos acessórios são aqui fundamentais para que a gradação (já estudada) do poema se concretize, mostrando o destino da vida humana: repousar os ossos em mortalha que se tornará rota, “habitando” um lugar poeirento.

ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL

QUESTÃO 8:

A paráfrase é um tipo de texto em que o autor reafirma, em palavras diferentes, o mesmo sentido de uma obra. Esse recurso textual pode ser construído a partir da afirmação geral da ideia de determinada obra ou como esclarecimento de uma passagem difícil. Geralmente, a paráfrase se aproxima do tamanho do texto original.

A partir do poema Cavador de infinito, de Cruz e Souza, produza uma paráfrase, lembrando que é necessário manter a ideia central do poema parafraseado.

Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!

Para auxiliá-lo nessa tarefa, siga as seguintes dicas:
1º -Ao fazer a leitura do poema de Cruz e Souza, sublinhe as palavras com significado desconhecido por você;
2º -Consulte o dicionário ou pergunte ao professor os significados dos termos desconhecidos por você no poema. Então, tente substituí-los pelos seus sinônimos e leia novamente o poema;
3º -Após a leitura do poema, reflita por um instante sobre sua temática central e explore essa ideia na produção do seu texto;
4º -Observe as rimas, a quantidade de versos, as estrofes, o tamanho e a organização sintática das frases para tentar aproximar as formas do texto original e do texto parafraseado;
5º -Para que você tenha sucesso nessa atividade, saiba: é interessante que o leitor, ao ler a sua paráfrase, lembre-se do texto original, caso o conheça.

Habilidade trabalhada:

Produzir paráfrases a partir dos poemas estudados.

Comentário:

Após a apresentação da questão de produção textual, é aconselhável orientar os alunos para a preocupação da forma e do conteúdo no poema parafraseado. No plano da forma, vale destacar o emprego de sinônimos, a mudança de ordem dos termos no período, de modo a desfazer os hipérbatos originais, e a sonoridade dos vocábulos como recursos interessantes para a manutenção do texto base, ou seja, o texto parafraseado. No plano do conteúdo, a preocupação é ainda maior, pois a principal característica da paráfrase é a permanência da ideia principal do texto motivador. Por isso, é necessário que você destaque uma estrofe do poema e inicie o passo a passo, conforme as dicas destinadas ao aluno na questão. Após essa breve demonstração, é interessante que você compare sua produção a fim de estabelecer coerência com o texto
original. Para ilustrar esse exercício, segue o seguinte quadro, que pode ser construído juntamente com os alunos em sala de aula.

Na paráfrase, não há necessidade de o texto secundário ter as rimas idênticas ao texto primário. O importante é que a adaptação/ reescrita/ renovação promovida pela paráfrase permita a percepção do texto original através da intertextualidade.

TEXTO GERADOR 5
O próximo Texto Gerador, “Pela internet”, é uma canção do músico Gilberto Gil, grande compositor da MPB e conhecido por explorar criativamente as palavras através de combinações sonoras e sugestivas. A partir deste texto, podem ser
trabalhadas habilidades do eixo Leitura e desenvolvida mais uma proposta de Produção Textual.

PELA INTERNET
(Gilberto Gil)

Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Um barco que veleje
Que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé
Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut
Um grupo de tietes de Connecticut
De Connecticut de acessar
O chefe da Mac Milícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus para atacar os programas no Japão
Eu quero entrar na rede para contatar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar...

Web: Sistema de hipermídia disponível na Internet, com documentos e outros objetos localizados em pontos diversos da rede e vinculados entre si; o conjunto de informações assim disponíveis.
Home-page: palavra inglesa na união entre home (casa) e page (página), significando a
página de entrada na Internet.
Gigabyte (s): palavra inglesa na união entre giga e byte, significando a unidade de
medida de informação, equivalente a 1024 megabytes.
Infomaré: neologismo que apresenta a união entre informática e maré.
E-mail: correio eletrônico.
Hot-link: termo utilizado para designar um link direto de um arquivo (imagem, vídeo,
som ou qualquer outro arquivo) de um site para outro.
Site: conjunto de documentos inter-relacionados, dispostos na Web em um endereço
específico de acesso.

ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 9:
Assim como a poesia simbolista, a canção “Pela Internet” explora recursos sonoros, como aliterações e assonâncias, e constrói imagens sugestivas por meio de figuras de linguagem. A partir da letra de Gilberto Gil, destaque exemplos desses
recursos e das imagens construídas.

Habilidade trabalhada:

Identificar os recursos expressivos do gênero textual canção, reconhecendo sua relação com a poesia e a música.

Resposta Comentada:

Para auxiliar o aluno na resposta dessa questão, é importante explicar algumas figuras de linguagem como a aliteração, a assonância, a metáfora que, presentes na canção, também são abundantes nos poemas simbolistas. Para isso, pode-se apresentar um quadro que sintetize os conceitos, como o seguinte:

FIGURAS DE LINGUAGEM
Nome Conceito Exemplo

Metáfora Comparação implícita que estabelece uma relação entre dois termos, sugerindo semelhanças. “Teus olhos são duas pérolas” (a imagem do olhar da pessoa está sendo associada ao brilho das pérolas).
Aliteração Repetição expressiva de um fonema consonantal. “Os perfumes, as cores e os sons se correspondem” (verso de
“Correspondências”, de Clarles Baudelaire, usando a repetição do “s”).
Assonância Repetição de sons vocálicos idênticos ou aproximados. “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras” (verso de “Antífona”, de Cruz e Souza, usando a repetição do “a”).
Anáfora Repetição de um termo no início de cada verso ou frase. Tudo era silencioso, tudo nebuloso, tudo confuso (repetição do pronome “tudo”).
Inversão ou repetição de termos, com ou sem alterações.
Quiasmo “... tinha uma pedra no meio do caminho,/ no meio do caminho tinha uma pedra (verso do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade).
Epizeuxe ou Repetição de vocábulo ou -Linda, linda, linda! (A palavra é Reiteração expressão repetida três vezes nesse
exemplo).

Depois de expor alguns recursos estilísticos, usando exemplos do cotidiano e de versos de autores consagrados, o professor pode esclarecer as figuras de linguagem que aparecem na canção “Pela Internet”, relacionando a preocupação do autor com a forma e expressão ao fazer poético.

Primeiramente, o professor pode tratar da aliteração por meio do estudo da repetição do fonema /R/ e /r/ no texto. O som de um r “mais forte” pode ser perceptível a partir da leitura de vocábulos como “barco”, “informar”, “porto”. Já o som de um r “mais fraco” pode ser compreendido a partir de palavras como “quero”, “lares” e “bares”. Ainda é possível observar outros casos, como a repetição do /m/ em “O chefe da Mac Milícia de Milão”. Por sua vez, a assonância pode ser entendida a partir da repetição do fonema /i/ na leitura de palavras como “informar”, “disquete” e “micro”,
ou ainda, do fonema /e/ em “tietes de Connecticut”.

Em relação ao aspecto semântico, o professor pode expor o neologismo “infomar é”, do verso “que aproveite a vazante da infomaré”, criado a partir da união entre as ideias de informática e do mar. Neste caso, a vastidão do mar é associada à
infinidade de informações disponíveis pela internet. A maré, portanto, corresponde metaforicamente a uma grande carga de dados disponíveis através dos links da Internet. Outros recursos relevantes são a reiteração enfática, a anáfora e o quiasmo, também observados na letra da música “Pela Internet”. A reiteração enfática ocorre na repetição das expressões “Um barco que veleje”e“Um grupo de tietes de Connecticut”. A anáfora pode ser demonstrada por meio da repetição do termo “que” em “Que veleje nesse informar/ Que aproveite a vazante da infomaré/ Que leve um oriki do meu velho
orixá” etc. Já o quiasmo pode ser visto no cruzamento dos versos em “Um grupo de tietes de Connecticut/ De Connecticut de acessar” e em “Um barco que veleje/ Que veleje nesse informar”.

Além disso, vale destacar para os alunos o uso de trocadilhos, como “informar” e “infomaré”; “Connecticut”, nome de um estado norte-americano, e “conecte”, forma do verbo conectar. Esses casos deixam clara a exploração da sonoridade das palavras na criação de novos sentidos e imagens sugestivas.

ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL


QUESTÃO 10:

A poesia do Simbolismo tinha na exploração da sonoridade das palavras um dos seus principais recursos expressivos. Além disso, os poetas simbolistas costumavam criar imagens sugestivas, para o que contribuíam figuras de linguagem com a metáfora, a comparação e a sinestesia. De igual modo, o gênero canção também se utiliza de tais recursos e sugere imagens, como ficou claro pelo exame das letras de “Ode aos ratos” e “Pela internet”, canções presentes neste Roteiro de Atividades.

A partir do estudo deste ciclo, você poderá desenvolver um texto comparando um poema simbolista e uma canção contemporânea. Para ajudá-lo no desenvolvimento do texto, considere as seguintes dicas:

1) Destaque os recursos sonoros de cada texto, ou seja, observe as aliterações, assonâncias, anáforas etc.;
2) Em seguida, busque por figuras de linguagem responsáveis pela construção de imagens, como metáforas e sinestesias;
3) Reflita sobre o efeito de cada recurso e de cada figura de linguagem nos textos;
4) Relacione, então, suas observações através de um texto comparativo;
5) Em seu texto, não se esqueça de destacar como recursos semelhantes podem ser explorados com rendimentos tão variados em épocas e gêneros tão distintos.

Se precisar de ajuda para estruturar seu texto, peça ao seu professor. Agora, mãos à obra!

Habilidade trabalhada: Estabelecer comparações entre poemas simbolistas do século XIX e letras de canções
contemporâneas.

Comentário:

No desenvolvimento dessa questão, o mais importante é que os alunos observem a presença dos recursos expressivos nos poemas e canções escolhidas para análise. Essa seleção pode ser feita pelo próprio professor que, se preferir, pode aproveitar os poemas simbolistas e canções presentes neste material. O ideal, porém, é auxiliar os alunos na escolha de outros textos. Para isso, é possível apresentar à turma algumas sugestões. Com relação às canções, por exemplo, ótimas alternativas são encontradas entre as composições de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lenine, Arnaldo Antunes, Zeca
Baleiro e Chico Buarque.

Apesar de tantas opções, os alunos ainda podem ter dificuldade no desenvolvimento da atividade comparativa devido ao aspecto temático. É compreensível que, ao tentar relacionar textos de gêneros e épocas tão diferentes, eles busquem,
mesmo sem perceber, semelhanças temáticas. Contudo, vale destacar que tal aproximação, neste caso, seria bastante difícil. Enquanto a poesia simbolista era marcada pela sugestão e pelo misticismo, a canção contemporânea costuma falar
abertamente sobre o amor. Além disso, nem de longe, essa relação é a mais relevante para consolidar o aprendizado a respeito dos recursos expressivos e das imagens sugestivas estudadas neste ciclo. Vale, portanto, alertá-los para que não percam o foco. É importante chamar a atenção da turma para a necessidade de comentar os efeitos dos recursos observados nos textos. Além de reconhecê-los, é fundamental que os alunos falem sobre o sentido de cada recurso sonoro ou figura de linguagem e avaliem a contribuição do efeito gerado na interpretação global do poema e da canção.